Segundo a UNESCO, entre 1.500 e 3.000 línguas (incluindo dialetos) são faladas no continente africano, cada uma carregando o legado de milênios de migrações e da história colonial. Ainda assim, apenas algumas dezenas conquistaram status oficial ou passaram a ser reconhecidas como línguas francas. Essas línguas de uso amplo aparecem no governo, na educação e na comunicação entre culturas. Neste artigo, a Altezza Travel apresenta as línguas mais faladas da África.
1. Suaíli
- Número de falantes: mais de 230 milhões
O suaíli é a língua africana mais falada. É usado ativamente na Tanzânia, no Quênia, em Uganda, em Ruanda, na República Democrática do Congo e também em Burundi, no Sudão do Sul, na Somália, em Moçambique, no Malawi, na Zâmbia e em Comores. O número de falantes nativos, porém, é relativamente pequeno – estimado em cerca de 15–20 milhões.
O suaíli surgiu na costa oriental do Oceano Índico. Começou como um dialeto pouco conhecido, falado por agricultores, pescadores e pastores locais. À medida que o comércio na região se expandia, transformou-se em uma língua de comunicação para todos que chegavam ali. Ao longo dos séculos, migrantes de outras regiões africanas, colonizadores europeus e comerciantes da Ásia e do Oriente Médio incorporaram ao suaíli elementos do árabe, do português, do inglês, do alemão e do hindi. Esse encontro linguístico ajudou a torná-lo uma das línguas mais difundidas da África e do mundo.
Hoje, o suaíli é ensinado em muitas escolas e universidades, tem forte presença nos meios de comunicação e é celebrado todos os anos em 7 de julho, no Dia Mundial da Língua Suaíli, instituído pela UNESCO. A União Africana também o reconheceu como língua oficial. O suaíli pertence ao ramo bantu da família linguística nigero-congolesa.
2. Inglês
- Número de falantes: 130–250 milhões
O inglês é língua oficial na África do Sul, no Quênia, na Nigéria, na Tanzânia, em Gana, em Uganda, na Zâmbia, na Libéria e em muitos outros países africanos. Ao todo, é falado em 27 dos 54 países da África, embora os níveis de proficiência variem bastante.
Segundo a organização internacional de educação EF Education First, responsável pelo English Proficiency Index, a África do Sul se destaca entre os países africanos de língua inglesa. O país ocupa a 10ª posição mundial, à frente de muitos países europeus, incluindo Romênia, Bélgica, Finlândia, Itália, França, República Tcheca e Suíça. O Quênia aparece em 19º lugar, enquanto a Nigéria fica na 30ª posição. Outros países africanos aparecem bem abaixo no ranking.
A World Linguistic Society, por sua vez, aponta Uganda, Zâmbia, África do Sul e Quênia, nessa ordem, como os principais países africanos de língua inglesa. Como observa o World Atlas, todos esses países foram colônias britânicas e hoje reconhecem o inglês como língua oficial. Esse legado colonial é uma das principais razões pelas quais línguas não africanas seguem amplamente presentes em muitas partes do continente.
3. Árabe
- Número de falantes: cerca de 213,5 milhões
O árabe tem o maior número de falantes nativos na África. Segundo o projeto global de dados World Data, mais de 213 milhões de pessoas falam árabe como primeira língua, incluindo seus diversos dialetos. Se também forem considerados os falantes que usam o árabe como segunda língua – por exemplo, para ler o Alcorão –, esse número é significativamente maior. Entre as principais línguas da África, o árabe lidera em falantes nativos, enquanto o suaíli e o inglês predominam como línguas francas.
O árabe é especialmente difundido no Norte da África e é língua oficial no Egito, na Argélia, no Marrocos, na Tunísia, na Líbia, no Sudão, na Mauritânia, no Chade, no Djibuti, na Somália e em Comores. A língua surgiu na Península Arábica e chegou à África no século 7, com a expansão do islamismo. Hoje, quase metade dos falantes de árabe do mundo vive no continente africano. O Egito é o país de língua árabe mais populoso, com a grande maioria da população usando o idioma no dia a dia.
4. Francês
- Número de falantes: 167 milhões
Segundo o Observatório do Mundo Francófono (ODSEF), existem 327 milhões de falantes de francês no mundo – e mais da metade vive na África. O francês é língua oficial em Benin, Burkina Faso, Burundi, Camarões, Comores, República Centro-Africana, Chade, Costa do Marfim, Djibuti, Gabão, Guiné, Madagascar, Mali, Níger, Ruanda, Senegal, Seychelles, Togo e na RDC.
Um dado interessante: os arquivos da Biblioteca do Congresso dos EUA indicam que Kinshasa, capital da RDC, tem mais falantes de francês do que Paris.
O francês chegou à África durante o período colonial: nos séculos 19 e início do 20, a França conquistou vastos territórios na África Ocidental, Equatorial e do Norte. Tornou-se a língua da administração colonial e da educação, usada no governo e na comunicação interétnica. Depois da independência, muitos países mantiveram o francês como língua oficial, e ele continua sendo parte importante da vida social e política.
5. Hausa
- Número de falantes: até 70 milhões
O hausa é a língua do povo hausa e é amplamente falado na África Ocidental e Central – em Benin, Camarões, Burkina Faso, Chade, República Centro-Africana, Congo, Gana, Eritreia, Sudão, Níger e Togo. Seu sistema de escrita original era baseado na escrita árabe, mas durante o período colonial passou para o alfabeto latino, usado até hoje.
Assim como o suaíli, o hausa é amplamente usado como língua franca nos negócios, na política, na educação e nos meios de comunicação. Jornais, livros, programas de rádio e TV são produzidos em hausa.
Segundo a Science Direct, plataforma acadêmica com revisão por pares, o hausa reúne alguns dos dicionários e referências gramaticais mais completos entre as línguas africanas. Apesar de sua importância, porém, o hausa não foi inicialmente reconhecido como língua oficial da União Africana (UA). Em 2022, na 35ª Assembleia da UA, o suaíli se tornou a primeira língua africana a receber status oficial na organização. Antes disso, apenas árabe, inglês, francês, português e espanhol eram oficiais. Hoje, o site da UA lista "todas as línguas africanas" como oficiais, ao lado dessas 5.
6. Amárico
- Número de falantes: até 60 milhões
O amárico é a segunda língua semítica mais falada do mundo depois do árabe, que tem mais de 100 milhões de falantes globalmente. É falado principalmente na Etiópia, onde funciona como língua oficial e de integração entre diferentes grupos étnicos. Também é possível ouvir amárico na Eritreia e em comunidades da diáspora no Egito, no Quênia, em Uganda, na África do Sul, no Djibuti, no Sudão e até nos Emirados Árabes Unidos.
O amárico é uma das poucas línguas africanas amplamente usadas com uma escrita própria. Seu sistema de escrita tem 34 caracteres básicos, cada um deles modificado conforme as vogais associadas, formando um conjunto com mais de 270 símbolos. O amárico também tem uma rica tradição literária, incluindo crônicas de imperadores etíopes como Tewodros II, textos religiosos e obras de ficção.
7. Iorubá
- Número de falantes: 40–45 milhões
O iorubá é falado em toda a África Ocidental – especialmente na Nigéria, o país mais populoso do continente, em Benin e em partes do Togo, de Serra Leoa, de Gana e da Costa do Marfim. Segundo a Knowledge 4 All Foundation, o iorubá também é falado por comunidades da diáspora em Cuba, no Brasil, nos EUA e no Reino Unido. O número total estimado de falantes é de 40–45 milhões.
O iorubá é uma língua tonal, com 3 tons básicos – alto, médio e baixo –, capazes de alterar o significado de uma palavra. Seu sistema de escrita se baseia no alfabeto latino, complementado por marcas diacríticas que indicam tons e sons. O iorubá é amplamente usado no cotidiano, ensinado em escolas da Nigéria e de Benin, e também é uma das principais línguas de Nollywood, a indústria cinematográfica nigeriana.
8. Oromo
- Número de falantes: até 45 milhões
O oromo é amplamente falado no nordeste da África – sobretudo na Etiópia, onde o povo oromo representa cerca de 40% da população. Também é falado em partes do Quênia, da Somália e do Egito. Na Etiópia, é uma língua nacional importante ao lado do amárico e é usada no governo, nos meios de comunicação e na educação. O Quênia abriga cerca de 8 grupos oromo distintos.
Por muito tempo, o oromo não teve status oficial devido ao predomínio do amárico na Etiópia imperial. Foi apenas na segunda metade do século 20 que começou a aparecer em publicações e no ensino. Nos anos 1990, adotou-se o alfabeto latino, o que tornou a língua mais acessível para a educação e a comunicação como língua franca.
9. Igbo
- Número de falantes: mais de 30 milhões
O igbo é a língua do povo igbo e é amplamente falado no sudeste da Nigéria, além de comunidades em Camarões, Guiné Equatorial, Serra Leoa, São Tomé, EUA, Reino Unido, Canadá e partes de Cuba, Barbados e Jamaica. Segundo a Oxford Bibliographies, mais de 30 milhões de pessoas falam igbo, a maioria como falantes nativos.
Desde o período colonial, o igbo é escrito com o alfabeto latino. Antes disso, um sistema de escrita simbólica chamado Nsibidi era usado pela sociedade Ekpe para comunicação ritual e secreta. Hoje, o igbo tem forte presença literária, em parte graças ao romance O mundo se despedaça, de Chinua Achebe, que, embora escrito em inglês, retrata de forma vívida o impacto da colonização europeia sobre a sociedade africana tradicional. Achebe recebeu o Prêmio International Booker em 2007.
Apesar do predomínio do inglês, língua oficial da Nigéria, o igbo continua sendo a principal língua de comunicação de milhões de pessoas, inclusive no exterior. Também é ensinado em algumas universidades nigerianas e em escolas de fim de semana.
10. Português
- Número de falantes: cerca de 30 milhões
O português é língua oficial em 6 países africanos: Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe, Cabo Verde e Guiné Equatorial. Com exceção da Guiné Equatorial, todos foram colônias portuguesas por aproximadamente 450 anos e hoje formam o grupo PALOP, sigla de Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa.
O português surgiu a partir de dialetos do norte de Portugal e se tornou língua oficial no século 13. No século 15, exploradores portugueses começaram a colonizar a África. Com o tempo, a língua se misturou a idiomas locais, dando origem a várias línguas crioulas ainda faladas hoje. Angola é uma exceção notável – é o segundo maior país de língua portuguesa do mundo, atrás apenas do Brasil. Assim, ainda que as línguas indo-europeias não sejam nativas da África, hoje elas têm papel importante em diversos países africanos.
Perguntas frequentes
O francês é língua oficial em um número maior de países africanos, especialmente na África Ocidental e Central, enquanto o inglês predomina em países muito populosos, como Nigéria, Kenya e África do Sul. As 2 línguas são amplamente usadas no governo, na educação e na mídia, embora o uso cotidiano varie conforme a região.
As 3 principais línguas africanas por número total de falantes são suaíli, árabe e inglês. Elas são amplamente usadas em vários países como línguas oficiais ou línguas francas.
O suaíli é muito mais comum que o zulu, falado por mais de 200 milhões de pessoas na África Oriental e Central, principalmente como 2ª língua. O zulu, embora importante na África do Sul, tem cerca de 12 milhões de falantes nativos.
Não há uma única líder – depende do critério. Pelo número de falantes nativos, o árabe está à frente. Porém, em termos de uso como língua franca, o inglês e o suaíli se destacam. Francês e hauçá vêm logo atrás.
O suaíli tem mais falantes no total na África por seu uso amplo como 2ª língua, enquanto o árabe tem mais falantes nativos. Portanto, o suaíli é mais falado de modo geral, mas o árabe lidera em fluência nativa.
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