Viajar pela Tanzânia é muitas vezes descrito como um retorno às origens da humanidade. O país é conhecido por sua vida selvagem singular e por praias deslumbrantes, mas, para além disso, está entre os lugares de maior diversidade cultural do mundo. Nômades Maasai altos e imponentes, caçadores Hadza de tradições antigas, Hehe resilientes e profundamente ligados à liberdade, artesãos Makonde talentosos e comerciantes e agricultores Chagga convivem em harmonia, formando uma Tanzânia diversa e coesa.
Quantas tribos existem na Tanzânia?
A Tanzânia tem mais de 120 tribos diferentes, presentes em todo o país. Cada uma fala sua própria língua e preserva tradições e costumes particulares.
A maioria das tribos da Tanzânia remonta suas raízes aos . Habitantes originários da África Central, os Bantu migraram gradualmente para leste, sul e oeste ao longo de milênios, dividindo-se em diferentes tribos.
Neste artigo, reunimos uma breve seleção de algumas tribos interessantes e influentes para apresentar a diversidade cultural da Tanzânia contemporânea.
Tribo Sukuma
A tribo Sukuma, um dos grupos étnicos Bantu, é o maior grupo étnico do país, representando cerca de 16% da população total da Tanzânia. Os Sukuma vivem no norte do país e na parte sul da costa do lago Victoria.
Os Sukuma se dedicam principalmente à agricultura, com atividades econômicas estreitamente ligadas à região do lago Victoria. Cultivam sorgo, milho, milheto, diferentes tipos de amendoim, batata-doce, mandioca, ervilha e arroz – sobretudo nas áreas oeste e sul –, além de culturas comerciais como algodão e gergelim.
A criação de animais também tem papel importante em sua economia. Os Sukuma são conhecidos pela criação de gado. Alguns produtos de origem animal, especialmente leite e manteiga, são consumidos pela família, enquanto outros, principalmente couros, são vendidos. A renda é usada para pagar impostos ou trocada por grãos. Para os Sukuma, vacas, cabras e ovelhas não são apenas fontes de renda e alimento, mas também símbolos culturais de riqueza e posição social.
A cultura Sukuma é rica em tradições musicais e de dança, especialmente a dança "Bugobobobo" – ou simplesmente "Ngoma". Essa apresentação colorida é um elemento central das festas e cerimônias Sukuma. Música e dança servem como meio de transmitir histórias, crenças e saberes dos antepassados de geração em geração.
Tradicionalmente, os Sukuma reverenciavam espíritos ancestrais, acreditando que eles protegiam a saúde dos familiares vivos. Hoje, porém, muitos praticam o cristianismo. Além disso, os Sukuma são conhecidos pelo uso de plantas e animais na medicina tradicional, considerados por eles mais eficazes do que os medicamentos ocidentais.
A sociedade Sukuma é majoritariamente matriarcal, embora a poligamia ainda seja comum entre muitos de seus integrantes.
Os Sukuma se dividem em 2 grupos distintos – Kimakia e Kisomayo –, que falam a língua sukuma e o suaíli. São próximos dos Nyamwezi, com quem vivem nas redondezas, e compartilham algumas características culturais.
Tribo Nyamwezi
Os Nyamwezi formam o segundo maior grupo étnico da Tanzânia, depois dos Sukuma. Atualmente, cerca de 2 milhões de tanzanianos se identificam como Nyamwezi. Seus integrantes vivem nas planícies das regiões de Tabora, Shinyanga e Mwanza. O nome "Nyamwezi" significa "povo da lua", em referência a antigas tradições de veneração lunar.
Grande parte desse grupo vivia em pequenas aldeias próximas umas das outras, mas, nos séculos 19 e 20, muitos subgrupos da tribo se dispersaram por diferentes assentamentos. Embora sua língua, seus costumes e suas tradições compartilhem raízes com os Sukuma, os Nyamwezi desenvolveram características culturais próprias.
Com o tempo, os Nyamwezi foram influenciados pelo islamismo e pelo cristianismo, mas suas crenças religiosas, baseadas na veneração da lua, dos espíritos e dos antepassados, permanecem presentes. Na sociedade tradicional Nyamwezi, os espíritos ancestrais desempenhavam papel central na vida cotidiana. Acreditava-se que os antepassados tinham o poder de influenciar positiva ou negativamente os vivos, e diversos rituais e formas de culto buscavam apaziguar esses espíritos.
Como muitas tribos da Tanzânia, a maioria dos Nyamwezi obtém renda com a venda de produtos agrícolas, sendo arroz e sorgo os 2 itens mais importantes.
Tribo Chagga
Os Chagga formam o terceiro maior grupo étnico do país. Vivem nas encostas meridionais do Kilimanjaro e do monte Meru. Segundo algumas estimativas, somam mais de 1,5 milhão de pessoas. Os Chagga são um grupo étnico Bantu e se dedicam principalmente à agricultura e à criação de animais.
Em cada casa tradicional Chagga há uma grande horta doméstica, onde se cultiva uma ampla variedade de produtos, como café, bananas e outras frutas – laranjas, limões e abacates –, além de cana-de-açúcar, flores, hortaliças e algumas ervas tradicionais. Muitas famílias também criam vacas e galinhas. Em geral, vivem em casas térreas de concreto, com telhados de chapa metálica ondulada. Os Chagga seguem uma tradição conhecida como "kihamba", em que a terra é transmitida de geração em geração pela linhagem masculina.
Hoje, a escassez de terras mudou a estrutura econômica da tribo. Muitos Chagga trabalham como assalariados em grandes cidades, mas ainda cultivam café como produto comercial. Graças ao acesso aos solos vulcânicos férteis do Kilimanjaro e a métodos agrícolas eficientes, os Chagga se tornaram a mais próspera entre as tribos da Tanzânia. Embora cultivem outros produtos, é o café arábica que gera a maior parte da renda da tribo.
Por causa de sua localização geográfica, muitos Chagga trabalham como guias e carregadores para viajantes que tentam subir os picos da região. Você pode encontrar alguns deles, por exemplo, ao subir o Kilimanjaro.
Tribo Maasai
A tribo que se tornou uma espécie de símbolo da Tanzânia é a dos Maasai. Estima-se que 800.000 integrantes desse povo vivam no norte e no centro da Tanzânia. Incluindo os Maasai que vivem no sul do Quênia, esse número ultrapassa 1 milhão de pessoas.
Os Maasai se dedicam principalmente à criação de animais, à pecuária bovina e à produção de carne e leite. Muitos também trabalham no turismo. Apesar de suas terras ancestrais terem sido transformadas em parques nacionais e de a região ter se tornado um destino turístico conhecido, os Maasai ainda preservam tradições e costumes. Continuam realizando danças vibrantes, cantando canções e participando de cerimônias tradicionais de iniciação. Muitas mulheres adornam o corpo e os lóbulos das orelhas alongados com elaborados trabalhos de miçangas.
A maioria dos grupos ainda vive em kraals – aldeias em que as casas são dispostas em círculo ao redor de um curral central. Os kraals são cercados por espinhos de acácia para proteger o gado de ataques de leões.
A importância de vacas, cabras e ovelhas na vida Maasai dificilmente pode ser exagerada: elas servem não apenas como fonte de sustento, mas também como indicadores de posição social. Ter gado e filhos são os 2 aspectos mais importantes da vida para os Maasai, e uma oração tradicional pode ser traduzida como "Que o Criador nos dê gado e filhos".
Os Maasai são monoteístas e acreditam em um único deus, Engai, que pode ser tanto benevolente quanto malévolo. No norte da Tanzânia, ao sul do lago Natron, fica o vulcão sagrado Maasai Ol Doinyo Lengai, também conhecido como a "Montanha de Deus". Os Maasai vão ao vulcão para rezar a esse deus em busca de alívio para infortúnios atuais e para o tratamento de doenças ou infertilidade. É possível subir a Montanha de Deus, mas os viajantes precisam estar bem preparados, pois a rota é exigente e envolve uma subida íngreme.
Os Maasai falam uma língua nilótica conhecida como Maa, embora a maioria também fale suaíli.
Qual tribo é famosa na Tanzânia?
Quando viajantes pensam nas tribos indígenas da costa da África Oriental e da Tanzânia, muitas vezes imaginam o povo Maasai. Talvez seja um dos grupos étnicos mais "populares" da região, já que tantas pessoas ouviram falar deles. Ainda assim, não são a maior tribo da Tanzânia, um país de extraordinária diversidade cultural e étnica.
Tribo Hadza ou Hadzabe
Os Hadza são uma das últimas tribos de caçadores-coletores que ainda existem no planeta. Em sua terra natal, entre o lago Eyasi e o Planalto do Serengeti, restam menos de 1.500 pessoas Hadza. Descendentes dos povos indígenas da Tanzânia, vivem nessa região há milhares de anos, mantendo um modo de vida notavelmente semelhante ao de seus antepassados.
Sem criação de animais nem agricultura, os Hadza começam a maioria dos dias caçando e coletando. Esse grupo étnico indígena leva uma vida que parece "primitiva" aos olhos de quem vem de fora. Seguem uma alimentação simples, considerada por eles a chave para a saúde. Os homens costumam caçar para levar carne e mel para casa, enquanto mulheres e crianças coletam frutas, bagas e raízes.
Um dos aspectos mais fascinantes dos Hadza é sua língua singular, sem relação com outras línguas tribais da região. Os Hadza se comunicam combinando palavras e sons de clique.
Para saber mais sobre o modo de vida dos Hadza, leia nosso artigo no blog; ou conheça integrantes da tribo pessoalmente em uma viagem ao lago Eyasi, no centro-norte da Tanzânia.
Tribo Makonde
A tribo Makonde vive no sudeste da Tanzânia. Hoje, mais de 1 milhão de pessoas no país se identificam como Makonde. Empenhados em preservar tradições testadas pelo tempo, os Makonde tendem a manter certa reserva, afastados de outras comunidades da região.
Nos séculos 18 e 19, grupos Makonde migraram para o norte a partir de Moçambique, cruzando a fronteira com a Tanzânia. Fugiram de Moçambique para escapar do domínio colonial e evitar a captura por traficantes árabes de escravizados.
A agricultura desempenha papel central na subsistência dos Makonde; mandioca e milho estão entre as culturas mais lucrativas que cultivam. No entanto, as esculturas em madeira talvez sejam seu produto mais conhecido. Muitos integrantes da comunidade Makonde dominam a arte da escultura e da gravação em madeira, criando máscaras impressionantes, ferramentas práticas e capacetes cerimoniais.
A arte da escultura era transmitida de pai para filho, com os jovens aprendendo técnicas durante cerimônias de iniciação. Muitos escultores produziam utensílios domésticos funcionais, mas os mais talentosos artisticamente eram convidados a criar máscaras-capacete rituais chamadas "mapiko" e figuras usadas em ritos sagrados. Embora fossem comunidades matrilineares, a escultura entre os Makonde é tradicionalmente uma ocupação masculina, e a técnica era mantida em segredo das mulheres da tribo.
As criações desses talentosos escultores em madeira vão além do artesanato: são partes integrantes da cultura e das tradições dessa tribo conservadora. As figuras de madeira são usadas não apenas em festas, mas também transmitidas como heranças familiares, muitas vezes representando aspectos da história e da espiritualidade Makonde.
Em geral, viajantes não têm permissão para visitar as aldeias Makonde locais; por isso, muitos escultores se mudaram para o norte para vender seus produtos em regiões mais movimentadas do país. Visitantes podem observar os artesãos trabalhando em mercados de artesanato em Arusha e Dar es Salaam.
Conhecidos pelo individualismo, pela resistência à escravidão e ao colonialismo, além de práticas culturais como escarificação e limagem dos dentes, os Makonde receberam o apelido de "os furiosos". Eles não apenas têm uma aparência aguerrida, mas também são famosos como guerreiros combativos.
Tribo Hehe
A tribo Hehe, ou Wahehe em suaíli, conhecida por sua resiliência e por tradições guerreiras, predomina na região de Iringa, no centro-sul da Tanzânia.
Historicamente, os Hehe se formaram a partir de várias comunidades mais antigas no século 19, unindo-se sob a liderança de seu famoso chefe, Mkwawa. Essa união tinha como principal objetivo resistir a ameaças externas, especialmente traficantes de escravizados e colonizadores europeus.
Os Hehe derrotaram um destacamento alemão em 17 de agosto de 1891, em Lugalo, e continuaram resistindo por 7 anos sob o comando do chefe Mkwawa. Esse elemento de seu patrimônio cultural segue notável e lembrado até hoje.
O povo Hehe se dedica principalmente à agricultura e à criação de animais.
Tribo Haya
O povo Haya, que vive no noroeste da Tanzânia, tem uma história rica, com mais de 2.000 anos. Os Haya são conhecidos por suas habilidades avançadas em metalurgia do ferro; no período pré-colonial, produziam aço de alta qualidade usando métodos de pré-aquecimento à frente de seu tempo. Sua cultura está intimamente ligada aos recursos do lago Victoria, perto do qual vivem.
Os Haya contam com terras férteis, que usaram para cultivar alimentos e moldar seu modo de vida. A agricultura, especialmente o cultivo de bananas, forma a base da economia e do cotidiano Haya.
A tribo Haya segue uma estrutura social patriarcal. As famílias vivem em comunidades muito unidas, chamadas clãs. Cada clã é liderado por um chefe, responsável por manter a ordem e resolver conflitos dentro da comunidade. Laços familiares fortes são uma marca da tribo Haya: famílias extensas muitas vezes vivem juntas em assentamentos compostos por várias casas.
O povo Haya possui uma rica herança espiritual, e as crenças tradicionais desempenham papel central na vida cotidiana. Eles acreditam na presença de espíritos ancestrais que zelam pela comunidade e a protegem. Para apaziguar e honrar esses espíritos, os Haya realizam rituais e cerimônias sagradas.
Hoje, os Haya chamam atenção não apenas por sua história, mas também por suas tradições culturais, especialmente a dança. As danças tradicionais Haya apresentam ritmos complexos marcados pelos pés, executados por dançarinos em trajes tradicionais – saias de palha e chocalhos nos tornozelos. O canto também é parte essencial da cultura Haya.
Tribo Iraqw
Por fim, a tribo Iraqw vive nas regiões frescas de altitude do centro-norte da Tanzânia. A maior parte da população Iraqw se concentra no Planalto de Mbulu, entre o lago Manyara e o lago Eyasi. A tribo conta com cerca de 350.000 pessoas. Acredita-se que os Iraqw tenham vindo da Etiópia para a Tanzânia por volta do século 16. Ao se estabelecerem no Vale do Rift, passaram a se dedicar à agricultura e à criação de animais.
O povo Iraqw desenvolveu sua cultura particular em parte porque preservou sua língua cuchítica distinta, diferente das línguas Bantu, nilóticas e khoisan predominantes na Tanzânia.
A maioria dos Iraqw vive da agricultura. Cultivam milho, feijão e milheto, usados em suas cozinhas e na economia local. Além disso, a tribo cria animais, incluindo vacas, cabras e ovelhas.
Os Iraqw também são conhecidos por suas habilidades em cerâmica e tecelagem. Criam peças de cerâmica funcionais, incluindo panelas, travessas e jarros em estilo clássico. Também usam materiais locais, como sisal e folhas de palmeira, para fazer cestos e esteiras.
O povo Iraqw tem uma forte crença em um poder superior responsável pela criação do universo. A crença na influência contínua dos mortos sobre os vivos e o culto aos antepassados ocupam lugar central em sua cultura.
Esta lista não contempla todas as tribos tanzanianas, mas buscamos mencionar algumas das mais numerosas e interessantes. A vida cotidiana na Tanzânia foi moldada pelos costumes e crenças de cada tribo, permitindo que o país mantenha sua identidade mesmo em uma sociedade em constante mudança e modernização. Seja na metrópole de Dar es Salaam ou nas profundezas do Serengeti, você certamente perceberá isso ao viajar pela Tanzânia.
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