Voltar

Prof. Karl Fleischmann sobre poluição plástica, microplásticos, mudanças climáticas e o desaparecimento das geleiras do Kilimanjaro

counter article 2845
Avaliação:
Tempo de leitura: 7 min.
Sobre a Tanzânia Sobre a Tanzânia

A produção global de plástico chegou a níveis alarmantes, e quase 80% dos resíduos plásticos continuam sem gestão adequada. Eles se acumulam nos oceanos e no solo, se fragmentam em partículas microscópicas e acabam dentro de animais, seres humanos e até plantas. Na África, o problema se agrava com a importação de resíduos da Europa e da América do Norte, o aumento do consumo de plástico, o aquecimento global e a pressão humana mais ampla sobre o meio ambiente.

A equipe editorial da Altezza Travel conversou com o professor Karl Fleischmann sobre todos esses temas. Ele explicou como os microplásticos podem afetar a saúde, por que a produção de alimentos está cada vez mais em risco e de que forma o desaparecimento das geleiras do Kilimanjaro impacta ecossistemas mais amplos. 

Sobre o plástico

Em 2019, a produção global de plástico chegou a cerca de 460 milhões de toneladas. Especialistas acreditam que, até 2060, o volume de resíduos plásticos pode quase triplicar. Quais números você considera mais reveladores sobre a dimensão do problema?

Desde que a produção de plástico começou, em 1950, foram fabricadas cerca de 12 bilhões de toneladas, o equivalente a 2.087 Grandes Pirâmides de Gizé. Apenas cerca de 9% desse plástico foi reciclado, e aproximadamente 12% foi incinerado.

Os 79% restantes, equivalentes a 1.650 Grandes Pirâmides de Gizé, estão nos oceanos, em aterros sanitários ou são descartados a céu aberto.

Com o tempo, esse material se fragmenta em , que representam riscos graves à saúde.

O que causa mais danos: os lixões de plástico visíveis ou os microplásticos? Você pode indicar pesquisas confiáveis sobre isso?

Ambos são prejudiciais, mas de formas diferentes.

Acúmulos visíveis de plástico criam problemas imediatos. Eles obstruem cursos d’água, contribuem para enchentes, tornam-se criadouros de vetores de doenças e liberam aditivos tóxicos à medida que o plástico se degrada.

Os microplásticos são mais traiçoeiros porque se espalham pela água, pelo solo e pelas cadeias alimentares, acumulando-se em organismos vivos. Também podem levar aditivos químicos para os tecidos de plantas, animais e seres humanos, inclusive para o cérebro, o sangue, os pulmões e até a placenta (Environment International, 2022; Science of the Total Environment, 2021). Estudos em laboratório e com animais associaram essa exposição ao aumento de inflamações, estresse oxidativo, risco de câncer e desregulação endócrina. Uma das preocupações é que alguns aditivos plásticos podem se comportar como hormônios, como o estrogênio, pois as células talvez não os distingam dos hormônios naturais.

Também já foi feita uma comparação direta com células renais embrionárias: células mantidas sem tratamento por 72 horas versus células expostas a micro e nanoplásticos por 72 horas. No grupo exposto, os pesquisadores observaram 75% de morte celular.

Além disso, estudos ecológicos relatam redução de crescimento, reprodução e sobrevivência em organismos marinhos. Nas plantas, a atividade fotossintética pode cair até 18%, ameaçando a agricultura e a segurança alimentar (Nature Reviews Earth & Environment, 2021). Os impactos de longo prazo na saúde humana ainda são incertos, mas as preocupações são sérias o bastante para que a Organização Mundial da Saúde tenha pedido pesquisas urgentes.

Quais países enfrentam os problemas mais críticos de resíduos plásticos? Há países africanos entre eles?

A maior parte dos resíduos plásticos "não controlados" vem do Sul e do Sudeste Asiático, incluindo países como Filipinas, Indonésia, Vietnã, Índia e Paquistão. A combinação de alta densidade populacional com sistemas de gestão de resíduos frágeis ou inexistentes impulsiona o problema.

Países africanos como Tanzânia, Nigéria, Egito, África do Sul, Argélia e Marrocos também contribuem, em grande parte porque uma parcela significativa do plástico é mal gerida devido a sistemas formais limitados de coleta e reciclagem. Ainda assim, a África gera muito menos resíduos plásticos, no total, do que a Ásia.

Durante anos, a África foi frequentemente retratada como destino das exportações de resíduos plásticos vindos de países mais ricos. A situação melhorou?

Em resumo, houve algum avanço, mas a África ainda sofre pressão significativa de resíduos plásticos importados, especialmente de países mais ricos.

Muitas nações africanas reforçaram controles por meio de tratados internacionais (), proibições nacionais e uma conscientização crescente sobre o que muitas vezes é chamado de "colonialismo de resíduos".

Há uma conscientização crescente na África sobre o que muitas vezes é chamado de "colonialismo de resíduos".

Alguns avanços são visíveis: marcos legais mais fortes, restrições a certos tipos de plástico e aumento da pressão pública.

No entanto, as importações continuam acontecendo por causa de brechas legais, fiscalização frágil e infraestrutura limitada de reciclagem. Ao mesmo tempo, o uso doméstico de plástico está crescendo, o que aumenta a carga.

Alguns defendem que resíduos plásticos podem ser queimados para gerar energia. Isso traz benefícios econômicos reais em países como a Tanzânia?

Incinerar plástico pode trazer alguns benefícios econômicos de curto prazo, como geração local de energia e redução do volume em aterros sanitários. Mas, em países como a Tanzânia, as desvantagens costumam superar os ganhos.

A queima de plásticos pode liberar substâncias químicas tóxicas, incluindo dioxinas e outros compostos nocivos, criando riscos graves à saúde. A infraestrutura necessária para uma incineração segura e controlada é cara, e muitas instalações não se sustentam sem subsídios. Na prática, os benefícios em nível comunitário costumam ser pequenos quando comparados aos custos da poluição do ar e aos impactos de longo prazo na saúde.

Sobre as mudanças climáticas

Vamos falar de questões climáticas além dos plásticos. Você trabalhou em projetos de restauração florestal, incluindo adaptação climática baseada em ecossistemas nas Seychelles. Ao redor do Kilimanjaro, as florestas também estão encolhendo. Qual é a gravidade disso localmente?

Ao redor do Kilimanjaro, a perda de florestas impulsionada pela agricultura e pela coleta de lenha é um problema local sério. Ela reduz a vazão dos rios e o abastecimento de água dos quais dependem comunidades, agricultura e geração hidrelétrica.

Além da água, essas florestas são ecologicamente cruciais. São áreas de alta biodiversidade, sumidouros de carbono e reguladoras naturais das chuvas e da estabilidade do solo. Seu declínio ameaça os meios de subsistência hoje e enfraquece a resiliência ecológica de longo prazo.

Em todo o planeta, as temperaturas estão subindo, os padrões de chuva estão mudando e secas e enchentes se tornam mais frequentes. O que representa maior ameaça para as savanas e os parques nacionais: as mudanças climáticas ou ações humanas, como caça ilegal e destruição de habitats?

Tanto as mudanças climáticas quanto as pressões humanas são graves, mas seus impactos são diferentes.

As mudanças climáticas (aumento das temperaturas, alteração nos padrões de chuva, mais secas e enchentes) pressionam os ecossistemas ao secar pontos de água e modificar os padrões da vegetação.

As pressões humanas, incluindo caça ilegal, expansão da agricultura, pastoreio e desmatamento, causam perda imediata de habitats e declínio de espécies. Na Tanzânia, a pressão humana é atualmente a ameaça mais aguda, mas as mudanças climáticas intensificam esses estresses e podem se tornar o principal fator de transformação dos ecossistemas no longo prazo.

Desde o início do século 20, as geleiras do Kilimanjaro diminuíram cerca de 85–90%. Isso é uma crise ecológica? Quais são as causas e consequências?

A temperatura média no cume do Kilimanjaro (Pico Uhuru, 5.895 m de altitude) fica em torno de −7 °C a −5 °C ao longo do ano. Portanto, o gelo das geleiras não está derretendo no sentido usual. O que reduz a quantidade de gelo é um processo chamado sublimação, quando gelo ou neve se transforma diretamente em vapor de água sem passar antes pelo estado líquido.

No Kilimanjaro, a sublimação foi acelerada pelo ar mais seco associado às mudanças climáticas, o que aumenta a velocidade de perda das geleiras e do permafrost.

Sim, é uma crise ecologicamente significativa. Ela reduz o armazenamento de água em alta altitude. Historicamente, a água associada às geleiras alimentava rios, riachos e aquíferos dos quais as comunidades locais dependem para beber, irrigar plantações e manter o gado. Com o recuo das geleiras, as vazões sazonais ficam mais variáveis, aumentando o estresse hídrico, especialmente durante os períodos secos.

Também há impactos nos ecossistemas. O recuo das geleiras e do permafrost pode desorganizar áreas úmidas alpinas, deslocar zonas de vegetação e ameaçar espécies endêmicas. Também pode desestabilizar solos, aumentando a erosão e a sedimentação rio abaixo.

Além dos efeitos locais, as geleiras do Kilimanjaro são um símbolo visível das mudanças climáticas nas montanhas tropicais, apontando tanto para a insegurança hídrica regional quanto para tendências mais amplas de aquecimento global.

Professor Karl Fleischmann
Karl Fleischmann
Professor emérito Tanzânia

Especialista em ciências ambientais, atuou como professor e ocupou cargos de liderança em universidades na Suíça, na Tanzânia e nas Seychelles, além de coordenar projetos de restauração da vegetação, conservação da natureza e adaptação às mudanças climáticas. Hoje, sua pesquisa se concentra nos plásticos e em seus impactos ambientais, incluindo consumo e gestão de resíduos.

Publicado em 6 janeiro 2026 Atualizado em 26 maio 2026
Padrões editoriais

Todo o conteúdo da Altezza Travel é criado com base em conhecimento especializado e pesquisa cuidadosa, seguindo nossa Política Editorial.

Sobre o autor
Doris Lemnge

Doris vem de uma família profundamente ligada ao Kilimanjaro. Seu pai foi pioneiro no setor de expedições ao Kilimanjaro, conduzindo as primeiras expedições para turistas internacionais no início dos anos 90.

Ler biografia completa
Adicionar comentário
Agradecemos seu comentário!
Seu comentário aparecerá no site após a revisão
Se tiver alguma dúvida, fale conosco pelo WhatsApp

Quer saber mais sobre viagens na Tanzânia?

Fale com nossa equipe. Conhecemos de perto os principais destinos da Tanzânia. Nossos especialistas em viagens, baseados na região do Kilimanjaro, estão prontos para compartilhar orientações e ajudar você a planejar uma viagem memorável.

Leia outros artigos interessantes

Sucesso
Recebemos sua solicitação
Se quiser falar com nossa equipe agora, toque abaixo para nos chamar pelo WhatsApp
Ops!
Desculpe, algo deu errado...
Entre em contato pelo chat online ou pelo WhatsApp. Teremos prazer em ajudar.
Planejando uma viagem para a Tanzânia?
Nossa equipe está sempre pronta para ajudar
RU
Prefiro:
Ao clicar em "Enviar", você concorda com nossa Política de Privacidade.